Durante décadas, muitos membros da Congregação Cristã no Brasil cresceram ouvindo, direta ou indiretamente, que política era um assunto perigoso, carnal, sujo e incompatível com a vida espiritual. Em muitos ambientes, criou-se a impressão de que o simples envolvimento com a política já seria sinal de mundanismo, ambição, corrupção ou desvio da fé.
É verdade que existe um cuidado legítimo. A igreja não deve transformar o púlpito em palanque. O culto não deve ser usado para promover partido, candidato, vereador, deputado, prefeito, governador ou presidente. A fé não pode ser vendida a interesses eleitorais. A casa de oração não pode virar comitê político.
Até aqui, a prudência é compreensível.
O problema começa quando essa prudência deixa de ser proteção espiritual e passa a produzir alienação, medo, silêncio e abandono da vida pública.
Existe uma diferença enorme entre a igreja ser apolítica como instituição e os cristãos serem omissos como cidadãos. Uma coisa é não usar o nome da igreja para apoiar candidatos. Outra coisa, muito diferente, é criar uma cultura em que o membro passa a acreditar que todo envolvimento político é pecado, corrupção ou contaminação moral.
E, nesse ponto, é preciso falar com firmeza: a igreja errou gravemente.
Não errou por impedir campanha política dentro dos cultos. Errou quando permitiu que a neutralidade institucional fosse confundida com passividade espiritual. Errou quando a prudência virou silêncio. Errou quando o afastamento da política passou a ser visto quase como sinal de santidade, enquanto leis, decisões judiciais, políticas públicas e movimentos ideológicos avançavam sobre temas que afetam diretamente a fé, a família, a educação dos filhos, a liberdade religiosa e a consciência cristã.
A Circular nº 73/2020 da Congregação Cristã no Brasil, intitulada “Eleições - Cargos Políticos”, recorda orientação da Reunião Geral Anual de Ensinamentos de 2012. O texto afirma que aquele que exerce cargo ou ministério na Congregação, caso se envolva em política ou se candidate a algum cargo político, perderá a condição de continuar no cargo ou ministério, não podendo mais retornar a ele, ganhe ou perca a eleição. O texto também diz que continuará como irmão na fé, mas não poderá influenciar a irmandade nem fazer pronunciamento ou comentário político na Congregação, seja em orações, testemunhos ou por qualquer outra forma.
Essa circular precisa ser analisada com seriedade.
Formalmente, ela fala de quem exerce cargo ou ministério. Mas, na prática, a interpretação que muitos receberam foi mais ampla: a ideia de que política é algo tão perigoso, tão impuro e tão incompatível com a fé que o melhor seria o membro comum também se afastar completamente. Assim, mesmo quando a punição formal parece voltada aos líderes, a cultura formada atinge toda a irmandade.
Em muitas congregações, o membro que demonstra interesse por política passa a ser olhado com desconfiança. O irmão que se envolve em debate público é visto como alguém “misturado com o mundo”. O cristão que pensa em se candidatar é tratado como alguém que está buscando poder carnal. E, quando algum líder ou cooperador se aproxima da vida pública, mesmo de forma administrativa ou como assessor, pode acabar sendo afastado ou destituído, como se todo serviço público ou político fosse moralmente contaminado.
Mas será que essa visão é justa? Será que é bíblica? Será que é espiritualmente responsável?
A política não é santa por natureza. Mas também não é pecaminosa por natureza. Política é uma ferramenta de organização da sociedade. Ela pode ser usada para o bem ou para o mal. Pode proteger a liberdade ou destruí-la. Pode defender a família ou atacá-la. Pode garantir o direito de culto ou persegui-lo. Pode promover justiça ou institucionalizar abusos.
O problema não está no cargo em si. O problema está no coração de quem ocupa o cargo.
Dizer que todo político é corrupto é uma generalização injusta e perigosa. É como dizer que todo empresário é explorador, todo advogado é mentiroso, todo policial é violento, todo jornalista é vendido ou todo religioso é hipócrita. Existem maus políticos, assim como existem maus profissionais em todas as áreas. Mas também existem pessoas sérias, honestas, conscientes e comprometidas com o bem comum.
Quando a igreja ensina seus membros a enxergar a política apenas como sujeira, ela pode estar afastando justamente os homens e mulheres honestos dos lugares onde eles seriam mais necessários. Os corruptos não deixam a política porque os cristãos saíram dela. Eles apenas encontram menos resistência.
O poder pode revelar a corrupção de um homem mau, mas também pode ampliar a capacidade de um homem justo fazer o bem. Uma caneta nas mãos de um corrupto assina injustiças. A mesma caneta, nas mãos de alguém temente a Deus, pode proteger famílias, garantir liberdade religiosa, combater abusos, defender inocentes e impedir leis injustas.
A Bíblia não ensina que todo exercício de governo seja pecado.
José ocupou posição de governo no Egito e foi usado por Deus para preservar vidas em tempo de fome. Daniel serviu em posição elevada na Babilônia, sem abandonar sua fidelidade a Deus. Ester, dentro de uma estrutura de poder, interveio diante do rei para salvar seu povo. Neemias atuou com autorização real para reconstruir Jerusalém. Nenhum deles deixou de ser servo de Deus por estar perto do poder. Pelo contrário: foram usados justamente porque estavam em lugares de decisão.
A própria história bíblica também mostra que decisões públicas podem ter consequências espirituais profundas. Quando Jesus foi apresentado diante da multidão, o povo escolheu Barrabás e rejeitou Cristo. A maioria preferiu libertar um criminoso e condenar o Justo. Isso revela uma verdade dura: nem sempre a vontade popular está do lado da justiça. Uma multidão manipulada pode errar. Um povo sem discernimento pode votar contra a verdade. Autoridades injustas podem condenar inocentes. E o silêncio dos bons pode permitir que a injustiça avance.
Por isso, o cristão não pode tratar política como se fosse um assunto distante da fé. As decisões políticas entram na escola dos filhos, nos tribunais, nas leis penais, na liberdade de expressão, na liberdade religiosa, na forma como a família é tratada, na segurança pública, no combate ao crime, na proteção da infância, na economia, no trabalho e até na possibilidade de uma igreja exercer livremente seu culto.
A filosofia antiga já compreendia essa realidade.
Aristóteles afirmava que o ser humano é, por natureza, um animal político. Isso não significa que todo ser humano deva ser candidato, mas significa que o homem vive em comunidade, participa da cidade, sofre os efeitos das decisões coletivas e não pode fugir completamente da responsabilidade pública.
Platão, em A República, apresenta uma reflexão semelhante ao tratar do governo dos homens bons. A frase mais conhecida, repetida em diversas formas, diz que "o preço que os bons pagam por não se interessarem pela política é serem governados pelos maus". Ainda que a formulação moderna seja uma adaptação do pensamento platônico, a ideia central permanece poderosa: quando pessoas justas se recusam a ocupar espaços de responsabilidade, esses espaços não ficam vazios. Eles são ocupados por outros.
Santo Agostinho também refletiu sobre a ordem, a justiça e o poder. Para ele, um reino sem justiça se aproxima de uma grande associação de ladrões. A frase mostra que o problema não é apenas existir governo, mas saber se esse governo está subordinado à justiça. Quando a política perde o compromisso moral, o poder vira instrumento de opressão.
Edmund Burke, pensador político frequentemente citado em debates sobre liberdade e responsabilidade pública, é lembrado pela ideia de que, para o mal triunfar, basta que os homens de bem nada façam. Mesmo quando a formulação exata varia ao longo da história, a advertência moral continua verdadeira: o mal não cresce apenas pela ação dos maus, mas também pela inércia dos bons.
Essas ideias ajudam a compreender o momento atual.
Hoje, muitos cristãos se assustam com leis, decisões judiciais, propostas educacionais e movimentos culturais que afrontam valores que durante séculos foram considerados básicos para a fé cristã. Mas é preciso perguntar: onde estavam os cristãos quando esses espaços estavam sendo ocupados? Onde estavam os homens de bem quando os currículos escolares foram definidos? Onde estavam os defensores da família quando as leis foram redigidas? Onde estavam os religiosos quando a liberdade de fé começou a ser relativizada?
Não basta reclamar depois que a lei foi aprovada. Não basta chorar depois que o tribunal decidiu. Não basta dizer que o mundo está piorando se, ao mesmo tempo, os cristãos foram ensinados a ficar longe dos locais onde as decisões são tomadas.
A omissão também produz consequências.
A história mundial oferece exemplos terríveis do que acontece quando pessoas perversas chegam ao poder e a sociedade demora a reagir.
Adolf Hitler não começou com todo o poder absoluto que depois exerceu. Ele chegou ao centro do poder político na Alemanha em 1933 e, pouco tempo depois, o regime nazista consolidou uma estrutura de controle, perseguição e propaganda. A Lei de Concessão de Plenos Poderes permitiu ao governo nazista legislar sem o parlamento, abrindo caminho para a destruição das liberdades, a perseguição de minorias, a censura, o culto ao líder, o controle social e uma das maiores tragédias humanas da história.
Esse exemplo não deve ser usado de forma irresponsável para chamar qualquer adversário político de nazista. Isso empobrece o debate e banaliza a história. Mas o nazismo serve como alerta permanente: quando a sociedade entrega poder a líderes perversos, quando instituições se calam por medo ou conveniência, quando igrejas preferem preservar sua tranquilidade em vez de denunciar o mal, o Estado pode se tornar uma máquina de opressão.
Dietrich Bonhoeffer, pastor e teólogo luterano alemão, entendeu esse perigo. Ele foi uma das vozes cristãs que resistiram ao nazismo. Enquanto muitos líderes religiosos se acomodaram, Bonhoeffer percebeu que a igreja não podia apenas cuidar de sua liturgia enquanto o Estado esmagava vidas humanas. Sua resistência lhe custou a prisão e a morte. Sua história é um lembrete de que, em certos momentos, o silêncio religioso diante do mal político deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade moral.
Também existem exemplos positivos, mostrando que a fé pode atuar na vida pública sem se corromper.
Martin Luther King Jr. era pastor batista. Sua fé cristã não o afastou das ruas, dos discursos, das marchas e da luta pública por direitos civis. Pelo contrário: sua fé o levou a enfrentar leis injustas e estruturas de segregação racial. Ele não foi menos cristão por atuar politicamente. Foi justamente sua consciência cristã que o impulsionou a lutar contra a injustiça de forma pública, corajosa e não violenta.
William Wilberforce, político britânico e cristão, dedicou décadas de sua vida à luta contra o tráfico de escravos e contra a escravidão. Ele poderia ter se retirado da política dizendo que aquele ambiente era sujo demais. Mas permaneceu no Parlamento e usou sua posição para combater uma das maiores injustiças de seu tempo. Sua vida mostra que a política, nas mãos de alguém movido por consciência moral, pode se tornar instrumento de libertação e justiça.
Esses exemplos provam que não se pode generalizar.
A política produziu Hitler, mas também abriu espaço para Wilberforce. O poder foi usado por regimes opressores, mas também foi usado por homens e mulheres que combateram injustiças. A vida pública pode ser campo de corrupção, mas também pode ser campo de missão, serviço e responsabilidade.
O problema não é o cristão se interessar por política. O problema é o cristão abandonar seus princípios quando chega perto dela.
Por isso, é necessário corrigir uma distorção: não existe virtude automática em se afastar da política. Às vezes, esse afastamento não é santidade. É medo. Não é pureza. É omissão. Não é fidelidade. É negligência.
E aqui cabe uma reflexão séria.
No direito brasileiro, a omissão pode gerar responsabilidade em determinadas situações. O Código Penal trata, por exemplo, do crime de omissão de socorro, quando alguém deixa de prestar assistência, podendo fazê-lo sem risco pessoal, a uma pessoa abandonada, ferida, inválida ou em grave e iminente perigo, ou não pede socorro à autoridade pública. A lei reconhece que, em certas circunstâncias, não agir também pode ser uma forma de culpa.
O objetivo aqui não é dizer que a omissão política de uma igreja seja literalmente o mesmo crime previsto no Código Penal. Não se trata de fazer uma acusação jurídica simplista. Mas a existência do conceito de omissão no direito ajuda a levantar uma pergunta moral e espiritual: se a lei dos homens reconhece que há situações em que deixar de agir produz responsabilidade, será que diante de ameaças à fé, à família, à liberdade religiosa e à consciência cristã também não existe uma forma de negligência espiritual?
Quando uma instituição vê o avanço de leis e decisões contrárias aos valores que ela mesma prega, mas orienta seus membros apenas ao afastamento, sem formar consciência, sem preparar cidadãos, sem incentivar o discernimento público e sem permitir que homens honestos ocupem espaços de decisão, essa postura deve ser examinada.
Não seria isso uma forma de negligência espiritual?
A igreja não precisa apoiar candidato. Não precisa ter partido. Não precisa fazer campanha. Não precisa transformar culto em debate eleitoral. Mas precisa formar consciência. Precisa ensinar seus membros a pensar. Precisa defender a liberdade de culto. Precisa alertar sobre leis injustas. Precisa reconhecer que o cristão também é cidadão. Precisa parar de tratar a política como se ela pertencesse apenas aos ímpios.
A Coreia do Norte mostra um exemplo extremo do que acontece quando o Estado se torna inimigo absoluto da fé. Relatos internacionais apontam que cristãos são severamente perseguidos, e que até possuir uma Bíblia pode colocar uma pessoa e sua família em risco. O Brasil não vive essa realidade, e não se deve fazer comparação direta e irresponsável. Mas a lição histórica permanece: nenhuma liberdade religiosa desaparece de uma vez. Primeiro, a fé é ridicularizada. Depois, é empurrada para o espaço privado. Depois, é tratada como atraso. Em seguida, passa a ser vista como ameaça. Quando os fiéis percebem, as leis já foram escritas por outros.
É por isso que a omissão política dos cristãos é tão perigosa.
Enquanto os cristãos se calam, outros falam por eles. Enquanto os cristãos se ausentam, outros legislam por eles. Enquanto os cristãos evitam qualquer participação pública, outros decidem o que seus filhos aprenderão, quais valores serão protegidos, quais discursos serão permitidos, quais práticas serão criminalizadas e quais liberdades serão limitadas.
A igreja pode ser apolítica como instituição. Mas os membros da igreja não podem ser analfabetos políticos.
Ser apolítico como igreja significa não usar o nome da instituição para apoiar candidatos. Significa não dividir a irmandade por partido. Significa não transformar a casa de oração em palanque. Isso é correto.
Mas ser omisso como povo é outra coisa. É deixar que outros definam o futuro sem resistência. É abandonar a praça pública. É entregar a caneta das leis a quem pode usá-la contra a própria fé.
A Congregação Cristã no Brasil precisa refletir profundamente sobre isso. Não para abandonar sua tradição de cuidado com a política partidária. Não para permitir campanha dentro da igreja. Não para trocar a espiritualidade por militância. Mas para reconhecer que a orientação histórica produziu efeitos graves: afastou muitos membros honestos da vida pública, fortaleceu a ideia de que política é sempre pecado e deixou a defesa de valores cristãos enfraquecida diante de uma sociedade cada vez mais hostil à fé.
É possível manter o púlpito limpo sem abandonar a política aos corruptos.
É possível não indicar candidatos e, ao mesmo tempo, ensinar cidadania.
É possível não fazer campanha e, ao mesmo tempo, defender a liberdade religiosa.
É possível preservar a igreja de disputas partidárias e, ainda assim, reconhecer que homens e mulheres cristãos podem servir na vida pública com temor de Deus.
A pergunta que fica é simples: se os cristãos honestos não podem ocupar espaços de poder, quem ocupará?
Se os pais cristãos não acompanham as decisões sobre educação, quem decidirá o que seus filhos aprenderão?
Se os religiosos não defendem a liberdade de culto, quem a defenderá?
Se a igreja ensina seus membros a se calarem diante da política, com que autoridade depois reclamará das leis aprovadas pelos que não se calaram?
O silêncio também é uma escolha.
E, muitas vezes, é uma escolha com consequências espirituais.
Por isso, talvez tenha chegado a hora de a CCB e muitos outros grupos cristãos reverem não o zelo contra o partidarismo, mas a cultura de omissão que se formou ao redor dele. O problema não é impedir que o culto vire palanque. O problema é fazer o cristão acreditar que se interessar pela vida pública é sujar as mãos.
A política continuará decidindo a vida dos cristãos, mesmo que os cristãos decidam não se envolver com ela.
Continuará decidindo sobre escolas, famílias, segurança, liberdade religiosa, tribunais, leis, impostos, cultura, direitos e deveres. A ausência dos bons não paralisa a política. Apenas facilita o avanço dos maus.
E, diante de tudo isso, a frase atribuída a Martin Luther King Jr. continua ecoando como advertência moral:
“O que me assusta não é o barulho dos maus, mas o silêncio dos bons.”
Esse talvez seja o ponto mais sério de toda essa reflexão.
O barulho dos maus sempre existiu. O problema é quando os bons se calam. O problema é quando a igreja confunde silêncio com santidade. O problema é quando a omissão passa a ser tratada como virtude.
Porque, no fim, quando os bons se calam, os maus não apenas falam.
Eles governam.
