Dossiê Jorge Couri Parte 3: Nós pagamos sim
Linha fina: Um ancião teria se levantado, em 2001, para defender José Nicolau com documentos na mão — e teria sido calado com a frase de que o caso já estava pago. A cena nunca foi confirmada por ele. Mas o que veio depois está documentado: sete anos mais tarde, ele assinou o texto que absolveu Jorge Couri; dois meses depois recebeu dezoito páginas manuscritas cobrando que falasse; e nunca falou.
Toda investigação tem um ponto em que o silêncio pesa mais que os fatos. Nesta série, esse ponto tem nome: Paulo Plácido Rodrigues, ancião do Jardim Paulista.
Esta é a parte da série em que a reportagem tem menos documento e mais consequência. Convém dizer isso na primeira linha, e não na última.
O relato
Segundo o manifesto de janeiro de 2009, que atribui a informação aos anciães Geraldo Soares Magalhães, de Umuarama, e Isaac Dal Medico, da Freguesia do Ó, a cena teria ocorrido numa reunião no Brás, em 2001. Paulo Plácido teria se levantado para defender José Nicolau e apresentar documentos que provariam a mentira contra ele. João Santin o teria impedido, dizendo que teriam de tirar Nicolau “de todo jeito”, que “já tinham pago para isso”, e que, se ele insistisse, iria para a “lista negra” e nunca seria ancião regional ou setorial.
Paulo Plácido nunca confirmou essa cena. João Santin nunca a negou publicamente. Não há ata, gravação ou testemunho assinado dela.
O que existe são registros escritos, em três momentos distintos, feitos por pessoas diferentes, dizendo a mesma coisa.
Primeiro registro: novembro de 2008
Uma carta manuscrita de dezoito páginas, endereçada ao próprio Paulo Plácido, escrita por José Pereira e entregue em mãos em 17 de novembro de 2008. Esta reportagem localizou a imagem original de uma dessas páginas — a de número 14.
CARTA MANUSCRITA DE JOSÉ PEREIRA A PAULO PLÁCIDO — PÁGINA 14 DE 18 — 17/11/2008
Clique na imagem para visualizar o documento original em tamanho real
Nela, o autor cobra que Plácido se manifeste e cita o que teria sido dito para calá-lo:
“Paulinho, nós pagamos sim, para pôr fim no ‘Zé Nicolau’, e tudo o que está aí já é do nosso conhecimento; e você, fique quietinho aí com o seu ministério de ancião, senão você já sabe!”
O manuscrito menciona ainda que os anciães do Paraná já sabiam “da reunião, das provas dos documentos da compra de consciência contra o irmão José Nicolau”, relata que o ancião Basílio estaria presente (“cochilando ou fazendo de conta”), e termina com uma cobrança direta:
“Reaja irmão Paulinho, basta escrever para nós e contar a verdade em poucas linhas e assinar (…) pois já são cogitadas palavras entre os conservos anciãos, os quais dizem que o irmão é um covarde.”
Das dezoito páginas, esta reportagem tem uma. As outras dezessete não foram localizadas.
Segundo registro: janeiro de 2009
O manifesto, já citado, atribui a cena a dois anciães nomeados. É documento de parte interessada, e deve ser lido como tal — mas é um texto que circulou entre o ministério, com nomes, e que ninguém desmentiu por escrito.
Terceiro registro: junho de 2010
Uma carta aberta aos anciães da Congregação Cristã no Brasil, datada de 11 de junho de 2010, publicada em fórum aberto na internet, onde permanece. Ela narra a mesma cena e atribui a João Santin a mesma frase, na mesma direção: “Paulinho, nós pagamos sim — para tirar aquele monstro, José Nicolau, e você fique quietinho.”
Nada disso prova que a cena aconteceu. São relatos, de origens ligadas entre si, e é preciso dizê-lo. Mas há diferença jornalística entre uma história que se conta e uma que está escrita, datada, com nomes, em três documentos separados por nove anos — e que nenhum dos nomeados jamais contestou.
O que está documentado, e muda tudo
Até aqui, relato. A partir daqui, documento.
Em 9 de setembro de 2008, Paulo Plácido assinou a deliberação do Conselho de Anciães que repudiou “por unanimidade” toda e qualquer acusação contra Jorge Couri, tendo-as por “mentiras e calúnias”. A assinatura está de próprio punho na folha de continuação. Esta reportagem examinou o documento original.
DELIBERAÇÃO DO CONSELHO DE ANCIÃES — 09/09/2008 — FOLHA DE ASSINATURAS
Clique na imagem para visualizar o documento original em tamanho real
Ponha as datas em ordem:
| Quando | O que | Situação |
|---|---|---|
| 2001 | Teria se levantado para defender Nicolau e sido calado | relato |
| 9 de setembro de 2008 | Assina o documento que absolve Jorge Couri | documentado |
| 17 de novembro de 2008 | Recebe dezoito páginas manuscritas cobrando que fale | documentado |
| janeiro de 2009 | O manifesto torna a cena pública, com o nome dele | documentado |
| junho de 2010 | A cena é publicada de novo, na internet, com o nome dele | documentado |
| até hoje | Nunca se manifestou publicamente | — |
A carta manuscrita é de dois meses depois da assinatura. Ela não é um apelo no vazio: é a cobrança dirigida a um homem que acabara de assinar o documento que os acusadores consideravam a consagração da injustiça. Faz sentido, agora, a dureza do texto — e faz sentido que ele mencione que outros anciães já o chamavam de covarde.
Esta reportagem não afirma que ele assinou sob coação. Não há como saber. O que se sabe é que assinou, que foi cobrado por escrito, que seu nome foi publicado duas vezes, e que ele não respondeu.
O silêncio era organizado
Descartada ou não a cena de 2001, há algo que os documentos sustentam sozinhos.
O manifesto registra que anciães teriam assinado a deliberação de 2008 em branco, sem saber o conteúdo, e ficado “apavorados” ao descobri-lo. Registra as frases que teriam circulado como pressão:
“Se não assinar está traindo o ministério.”
“Vai ficar mal com os mais velhos.”
“Nunca será um ancião regional.”
Nenhuma delas é sobre a verdade dos fatos. Todas são sobre carreira eclesiástica.
Há ainda, no acervo do CCBVERDADE, uma carta cujo autor não é identificado nesta publicação. Ela não denuncia ninguém. Confessa:
“Vou lhes contar um segredo: saibam que a maioria de nós anciães tem medo do seu site (…) Muitos de nós antigos sabíamos de muitas coisas que somente hoje a irmandade tem acesso, mas nenhum de nós teve coragem de jogar no ventilador a verdade, por medo de perder nosso ministério.”
E antecipa a própria conta:
“Atualmente estou imaginando que no dia do meu julgamento Deus poderá me condenar por nunca ter dito em púlpito que acredito e apoio vocês.”
Esta reportagem não pode demonstrar ao leitor a autenticidade desse documento sem expor quem o escreveu. Por isso ele é apresentado aqui pelo que é — um relato —, e não como prova. O leitor deve pesá-lo assim.
A pergunta que fica
Se a cena de 2001 nunca for confirmada, esta parte da série terá servido a alguma coisa? Sim — e talvez à mais importante.
Porque a pergunta que ela deixa não depende de Paulo Plácido ter ou não sido calado numa reunião. É esta: por que ninguém falou?
Havia, em 2001, um ancião afastado que se dizia inocente. Havia, a partir de 2008, uma carta registrada em cartório, extratos bancários e uma fita periciada. Em 2009, uma confissão assinada. Ao longo de todos esses anos, dezenas de homens em posição de ministério tomaram conhecimento de tudo isso.
Nenhum deles disse nada em público. E a razão que os documentos oferecem, quando oferecem alguma, nunca é doutrinária. É sempre a mesma, e é banal: quem falasse perdia o ministério.
O QUE ESTA REPORTAGEM APURA E O QUE NÃO APURA
A cena de 2001 é relato não confirmado, registrado por escrito em 2008, 2009 e 2010, por autores ligados entre si. Nenhum dos nomeados a contestou publicamente — o que não equivale a confirmá-la.
A assinatura de Paulo Plácido na deliberação de 9 de setembro de 2008 é documento, examinado por esta reportagem no original.
A carta manuscrita de 17 de novembro de 2008 é documento, do qual esta reportagem tem uma das dezoito páginas.
Paulo Plácido, João Santin e os demais nomeados nesta reportagem têm espaço garantido e integral neste site para responder, a qualquer tempo.
