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Dossiê Jorge Couri Parte 2: A Carta (Extratos e Passagens)

O rastro do dinheiro

Narração em áudio (9 min)

Dossiê Jorge Couri Parte 2: A Carta (Extratos e Passagens)

Linha fina: Endividado e com o restaurante fechado, o homem que acusou José Nicolau escreveu treze páginas de próprio punho, levou-as a um tabelião em São Paulo e as enviou à vítima. Junto, mandou os extratos da conta da esposa, as passagens de ônibus e a conta de telefone. Era setembro de 2001 — sete anos antes de o caso se tornar público.

Há um detalhe nesta história que costuma passar despercebido, e é ele que sustenta tudo o mais.

A retratação de Sérgio Anísio Soares Alves é de 17 de setembro de 2001.

O dossiê contra Jorge Couri só circularia entre os anciães em agosto de 2008. A circular que o inocentou é de setembro de 2008. A confissão de Jeremias Guido, de maio de 2009.

A carta antecede em sete anos toda a disputa pública. Não pode ter sido escrita para o dossiê, porque o dossiê ainda não existia. Quando Sérgio a escreveu, não havia lado a que ela servisse.

E ela não veio sozinha.

Um homem que vai ao cartório para se incriminar

O conteúdo da carta foi contado na primeira parte desta série. O que interessa aqui é o gesto — e o que veio anexado a ele.

Em setembro de 2001, Sérgio havia perdido o restaurante. Devia, segundo escreveu, mais de R$ 7 mil na praça e R$ 15 mil no banco.

"Foi um dinheiro amaldiçoado, e depois disto eu perdi tudo, ou quase tudo."

Um homem nessa situação tem saídas mais baratas. Calar-se é a primeira. Negar, se cobrado, é a segunda. Sérgio escolheu a mais cara: escreveu treze páginas à mão admitindo que mentiu, levou tudo ao 23º Tabelião de Notas de São Paulo, pagou pela autenticação de cada peça e enviou o conjunto ao homem que ajudara a derrubar.

"Vou registrar esta carta no cartório e enviarei para o senhor para não ter dúvida que fui eu que escrevi e assinei."

Não pediu nada em troca. E ofereceu:

"Já me proponho mais para frente ir ao Brás com o irmão e comprovar na frente de todos a verdade desta sujeira que foi feita contra o irmão."

Essa oferta nunca foi aceita. Não consta que Sérgio tenha sido chamado a repetir, diante do conselho de anciães, o que escrevera — embora tenha sido levado ao púlpito, sete meses antes, para dizer o contrário.

Os depósitos

A parte central do anexo são extratos bancários e a Autorização de Sérgio e esposa de uma conta corrente do Banco Itaú aberta em nome de familiar de Sérgio Anísio (dados bancários preservados por esta reportagem). São três emissões, de 17 e 20 de abril, 29 de abril e 5 de junho de 2001, todas com selo de autenticidade do 23º Tabelião.

Autorização de Sérgio e esposa (Documento Original)

Autorização de Sérgio e esposa

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É a conta que, segundo a carta, Jeremias Guido pediu ao final de uma das reuniões.

Nos extratos aparecem, entre março e maio de 2001, lançamentos de "TEC depósito dinheiro". Vários estão circulados a caneta no próprio documento, com anotações à mão ao lado — em alguns lê-se "SP Brás".

Os depósitos assinalados:

DataLançamentoValor
20/03/2001TEC depósito dinheiroR$ 500,00
27/03/2001TEC depósito dinheiroR$ 2.500,00
03/04/2001TEC depósito dinheiroR$ 2.000,00
11/04/2001TEC depósito dinheiroR$ 5.000,00
20/04/2001TEC depósito dinheiroR$ 2.300,00
22/05/2001TEC depósito dinheiroR$ 2.000,00
TOTALR$ 14.300,00

Há um padrão que se repete em todos os seis depósitos: no mesmo dia de cada entrada, um saque em cartão magnético de valor quase idêntico. Em 20 de março, saque de R$ 490 e depósito de R$ 500. Em 27 de março, saque e depósito de R$ 2.500. Em 3 de abril, saque de R$ 1.980 e depósito de R$ 2.000. Em 11 de abril, saque de R$ 4.990 e depósito de R$ 5.000. Em 20 de abril, saque de R$ 2.280 e depósito de R$ 2.300. Em 22 de maio, saque e depósito de R$ 2.000.

O extrato começa com a linha impressa “SALDO ANTERIOR 20/03 — 0,00” e termina, em junho, com saldo negativo de R$ 5,12 e o aviso do banco: “favor regularizar o saldo devedor”. A conta abriu em zero, recebeu R$ 14.300 em seis parcelas, devolveu quase tudo em dinheiro no mesmo dia de cada entrada e fechou no vermelho. Ela não guardou o dinheiro: serviu de passagem.

Os seis depósitos em dinheiro somam R$ 14.300,00.

No dia 20 de abril há ainda um depósito em cheque de R$ 1.800 que foi estornado no mesmo dia — ele não entra nesta soma, e é registrado aqui para que o quadro fique completo.

As passagens

Sérgio escreveu que foi de Itápolis a São Paulo três ou quatro vezes entre fevereiro e março de 2001, sempre a pedido de Jorge Couri, e que numa das vezes pegou o ônibus às duas e meia da manhã para chegar ao Brás às nove.

Entre os documentos autenticados estão bilhetes de passagem rodoviária da Empresa Cruz de Transportes, linha São Paulo/Novo Horizonte, no trecho São Paulo–Itápolis. Um deles, de número 208514, registra embarque em 7 de março de 2001, quarta-feira, às 23h30, ao preço de R$ 34,00. Outro, de número 072608, acompanha o conjunto.

São documentos modestos, e é justamente isso que os torna úteis: ninguém guarda bilhete de ônibus por sete anos a menos que ele signifique alguma coisa. Eles situam as viagens que a carta descreve em datas verificáveis.

A conta de telefone

O documento mais inesperado do conjunto é uma fatura da Telefônica, referente ao período de 1º a 30 de junho de 2001, em nome de familiar de Sérgio Anísio, em Itápolis.

Nela, alguém marcou à mão as chamadas e escreveu, na margem, a quem correspondiam:

"Jeremias celular", ao lado do bloco de chamadas de longa distância para celular.

"Jeremias casa" e "CCB Brás", ao lado do bloco de longa distância nacional.

O manifesto de 2009 aludiria a isso em uma frase que, sem o documento, parecia apenas retórica: "Várias ligações foram feitas para a Congregação do Brás e para a casa e celular de Jeremias; haveria necessidade?"

E há uma correspondência que merece exame. O parecer técnico do perito Eduardo Zocchi, que degravou a fita, descreve exatamente três ligações: uma para o celular de Jeremias Guido, que cai na caixa postal; uma para a casa dele, onde uma mulher informa que ele foi "para a congregação — Congregação do Brás"; e uma terceira para a Congregação Cristã no Brasil, em que a conversa finalmente acontece.

Os três destinos anotados na conta telefônica são os três destinos da gravação.

Cotejando a fatura telefônica com o extrato da operadora Embratel (`nicola25.jpg`), a data exata em que as ligações foram efetuadas e gravadas fica estabelecida em 20 de junho de 2001.

A conta que começa a fechar

Havia, até aqui, três números divergentes neste caso. Com os extratos lidos, eles deixam de ser inconciliáveis.

Na gravação, Sérgio diz que “eles sabem até que foi aquele valor de catorze mil”. Os seis depósitos em dinheiro somam R$ 14.300. Catorze mil é, portanto, o que entrou em conta — e é o número que ele usa ao falar com Jeremias Guido, oito anos depois, sem saber que estava sendo gravado.

O dossiê e o manifesto falam em R$ 19.300. A carta descreve, além dos depósitos, entregas em mãos: R$ 500 na primeira visita ao apartamento de Couri, "mais de R$ 500" na segunda, e R$ 4.000 entregues por Jeremias Guido junto ao elevador — cerca de R$ 5.000 em espécie.

Depósitos mais entregas em mãos dão exatamente os R$ 19.300 do dossiê: R$ 14.300 em conta e R$ 5.000 em espécie.

Os três números, que pareciam divergentes, são o mesmo número visto de três lugares: **catorze mil** é o que Sérgio lembra ter recebido em conta; **R$ 14.300** é o que o extrato registra; **R$ 19.300** é o total, somada a entrega em espécie descrita na carta. Esta reportagem afirma como comprovados apenas os R$ 14.300 dos extratos, que são documento bancário autenticado em cartório em setembro de 2001. Os R$ 5.000 em espécie constam da carta de Sérgio e da gravação, e são relato — coerente com o restante, mas relato.

O que o cartório atesta — e o que não atesta

É preciso ser exato, porque aqui mora um mal-entendido comum.

O reconhecimento de firma não atesta que o conteúdo de um documento é verdadeiro. Nenhum tabelião certifica que alguém diz a verdade. O que ele certifica é mais estreito e, neste caso, decisivo: que aquele papel existia naquela data.

E é isso que está em disputa. A defesa de Jorge Couri, em 2008, sustentaria que as acusações eram mentiras e calúnias. O selo do 23º Tabelião não responde se Sérgio mentiu em 2001 ou antes. Mas responde a uma pergunta que a defesa nunca enfrentou: a retratação, os extratos, as passagens e a conta telefônica existiam, autenticados, desde 2001 — e a igreja tomou conhecimento deles em 2008 sem examinar nenhum.

O manifesto de janeiro de 2009 registrou a estranheza em uma frase seca:

"Se a declaração verbal de Sérgio mereceu crédito, as afirmações por ele escritas com firmas reconhecidas deveriam também ser aceitas, ao menos para um confronto."

O mesmo homem foi tratado como testemunha confiável quando acusou e como mentiroso quando se retratou. Nas duas vezes, sem que se apurasse nada.


O QUE ESTA REPORTAGEM APURA E O QUE NÃO APURA

Esta reportagem examinou as imagens do manuscrito de treze páginas, da transcrição datilografada, dos extratos bancários, dos bilhetes de passagem e da conta telefônica, todos com selo de autenticidade do 23º Tabelião de Notas de São Paulo, preservados no acervo do CCBVERDADE.

Não teve acesso aos originais em papel, não confirmou o registro junto ao tabelionato, não obteve segunda via dos extratos junto ao banco nem da fatura junto à operadora. As anotações à mão nos documentos não têm autoria identificada — não se sabe se foram feitas por Sérgio, por quem montou o dossiê ou por terceiro. Isso não afeta os lançamentos impressos, mas afeta as legendas.

O conteúdo da carta é a versão de Sérgio Anísio Soares Alves — homem que admite ter prestado falso testemunho e que, portanto, admite ter mentido pelo menos uma vez. Isso deve pesar na leitura, nos dois sentidos.

Jorge Couri nunca confirmou essa versão e morreu em 30 de agosto de 2014 sem ter sido condenado por qualquer dos fatos aqui narrados.


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