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As “Verdades Absolutas” que o Tempo Desmentiu

Quando uma ideia deve ser aceita como verdade?

Narração em áudio (19 min)

As “Verdades Absolutas” que o Tempo Desmentiu

Quando uma ideia deve ser aceita como verdade?

Em quem devemos confiar?

Em um médico experiente? Em um cientista? Em uma instituição famosa? Em um líder religioso? Em nossos pais e avós? Na maioria das pessoas?

É correto ouvir quem estudou mais, viveu mais ou tem mais experiência. Humildade é reconhecer que não sabemos tudo e que podemos aprender com os mais velhos e com quem se dedicou a um assunto.

Mas existe uma diferença entre respeitar uma autoridade e acreditar que ela nunca pode errar.

Esta matéria não pretende induzir ninguém a desobedecer autoridades, abandonar tratamentos médicos ou tratar toda instituição como inimiga. O objetivo é outro: defender o direito — e o dever — de fazer perguntas responsáveis.

Até pessoas bem-intencionadas erram. Até especialistas podem enxergar apenas uma parte do problema. Até instituições respeitadas podem sofrer influência de dinheiro, pressão política, ideologia, medo de críticas ou simples conveniência.

Por isso, nenhuma ideia deveria ser protegida contra perguntas, provas e revisões.

A pergunta não é: “Em quem devo confiar cegamente?”

A pergunta é: “O que sustenta essa afirmação? Quais são as provas? Existem interesses envolvidos? O que aconteceria se essa ideia estiver errada?”

A história está cheia de exemplos de práticas que foram apresentadas como modernas, seguras ou indispensáveis — e que, anos depois, se tornaram motivo de vergonha.

1898: heroína vendida como remédio para tosse

No fim do século XIX, a Bayer comercializou a heroína como um medicamento. Ela foi divulgada como uma alternativa à morfina e chegou a ser usada como remédio para tosse.

Naquele momento, muitas pessoas não sabiam o que sabemos hoje: a heroína é uma substância altamente viciante e perigosa.

Isso não significa que todas as pessoas envolvidas queriam fazer mal a alguém. Significa que uma empresa, médicos e consumidores acreditaram em algo que depois se mostrou gravemente errado.

Início dos anos 1900: mercúrio para aliviar a dentição infantil

Durante anos, produtos com calomelano — uma substância à base de mercúrio — foram usados em crianças, inclusive para aliviar o desconforto do nascimento dos dentes.

Depois, percebeu-se que a exposição ao mercúrio podia causar uma doença conhecida como acrodinia, ou “doença rosa”. Crianças apresentavam dor, irritação, alterações na pele, mãos e pés avermelhados ou inchados e outros problemas graves. Houve casos fatais.

Hoje parece inacreditável pensar em mercúrio na boca de uma criança. Mas, naquele tempo, havia confiança na prática.

1911: a gordura vegetal que parecia uma solução moderna

Em 1911, a Crisco foi lançada nos Estados Unidos como uma gordura vegetal sólida, produzida a partir de óleos vegetais modificados industrialmente.

Por muitos anos, esse tipo de produto foi visto como uma alternativa moderna às gorduras animais. Só mais tarde ficou claro que as gorduras trans produzidas por hidrogenação industrial aumentavam o risco de problemas cardiovasculares.

Em 2015, a agência reguladora dos Estados Unidos concluiu que os óleos parcialmente hidrogenados — principal fonte industrial de gordura trans — não eram mais reconhecidos como seguros para uso em alimentos.

A lição é simples: “novo” não é sinônimo de “seguro”.

Anos 1920: água radioativa vendida como tônico

Na década de 1920, produtos radioativos chegaram a ser vendidos como se dessem energia e vitalidade. Um dos mais conhecidos era o Radithor, uma água com rádio dissolvido.

O empresário americano Eben Byers começou a tomar o produto após recomendação médica, acreditando que ele o ajudaria a se recuperar de uma lesão. Ele consumiu cerca de 1.400 frascos.

Com o tempo, sua saúde entrou em colapso. O rádio se acumulou em seus ossos, causando danos graves. Byers morreu em 1932, com seu maxilar praticamente derretido.

Hoje sabemos que ingerir material radioativo é extremamente perigoso. Naquela época, porém, a radioatividade era associada ao progresso e à modernidade. O brilho da novidade fez muitas pessoas ignorarem a falta de provas reais de segurança.

Anos 1940: cigarro com aparência de recomendação médica

Durante décadas, propagandas de cigarro usaram médicos, jalecos e frases que transmitiam segurança. Algumas marcas chegaram a sugerir que seu produto era mais suave para a garganta ou preferido por médicos.

Hoje, a ligação entre tabagismo, câncer, doenças cardíacas e problemas respiratórios é amplamente conhecida.

O problema não foi apenas falta de informação. Também existia interesse financeiro. Empresas lucravam muito com a venda, enquanto a publicidade ajudava a transformar uma escolha comercial em algo que parecia recomendado por especialistas.

Lobotomia: quando “menos trabalho” podia parecer uma solução um ato extremo foi chamado de avanço

A lobotomia é um dos exemplos mais chocantes de como uma ideia pode ser aceita como verdade antes que suas consequências sejam realmente compreendidas.

Hoje, quando pensamos em cirurgia no cérebro, imaginamos hospitais modernos, exames, anestesia, equipamentos delicados e médicos trabalhando com extrema precisão. Mas, em meados do século XX, uma técnica chamada lobotomia chegou a ser apresentada como uma solução para pessoas com sofrimento mental, comportamentos considerados difíceis ou crises emocionais.

Em uma de suas versões mais conhecidas, popularizada nos Estados Unidos pelo médico Walter Freeman, usava-se um instrumento fino de metal, semelhante a um picador de gelo. O instrumento era introduzido pela região acima do olho, atravessando a fina camada de osso da órbita ocular até alcançar a parte frontal do cérebro.

Depois, ele era movimentado para romper conexões cerebrais.

Em linguagem simples: uma pessoa podia ter uma haste de metal introduzida pela região dos olhos e levada até o cérebro, em um procedimento que pretendia mudar seu comportamento.

Há relatos e memórias orais, ainda sem confirmação documental, de que pessoas leigas tentavam imitar procedimentos semelhantes usando pregos grandes ou objetos metálicos em seus próprios filhos. Segundo essas narrativas, a prática era motivada pela promessa de que crianças consideradas agitadas ou “difíceis” se tornariam mais quietas, passivas e fáceis de controlar.

Como esses casos não foram confirmados por registros históricos disponíveis, eles devem ser tratados como relatos orais, e não como fatos comprovados.

Hoje, para quase qualquer pessoa, essa descrição parece extrema, assustadora e inaceitável. Parece evidente que mexer dessa forma no cérebro de alguém poderia causar danos profundos. Mas, naquela época, muitos médicos, hospitais, famílias e autoridades acreditaram que aquilo era uma descoberta genial.

A lobotomia era defendida como uma forma de reduzir angústia, agitação, tristeza profunda, delírios ou comportamentos que os médicos não sabiam tratar. O problema é que, muitas vezes, o que parecia melhora era apenas a diminuição da personalidade da pessoa.

Alguém antes agitado podia se tornar quieto. Alguém antes revoltado podia deixar de reagir. Alguém antes emocionalmente intenso podia se tornar apático, sem iniciativa, sem interesse e sem capacidade de tomar decisões como antes.

Para uma instituição superlotada ou para uma família sem apoio, uma pessoa mais silenciosa podia parecer “mais fácil de cuidar”. Mas estar mais fácil de controlar não é o mesmo que estar curada.

Esse é um dos pontos mais dolorosos dessa história: em vez de compreender melhor o sofrimento humano, algumas intervenções acabaram apagando partes importantes da pessoa. Em muitos casos, a aparente tranquilidade vinha acompanhada de perda de autonomia, mudanças graves de personalidade, dificuldades de concentração, redução das emoções e incapacidade de levar uma vida independente. Alguns pacientes morreram em consequência do procedimento.

Ainda assim, a lobotomia recebeu grande atenção, foi aplicada em milhares de pessoas e chegou a ser tratada como uma esperança da psiquiatria.

O neurologista português António Egas Moniz recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 1949 por pesquisas relacionadas à leucotomia, nome usado para um tipo de lobotomia. Esse detalhe é importante porque mostra que uma ideia pode receber aprovação institucional, prestígio internacional e até o maior prêmio científico de sua área — e ainda assim estar profundamente errada ou ter riscos que não foram reconhecidos a tempo.

Não é necessário concluir que todos os médicos daquela época eram maus ou queriam destruir vidas. Muitos acreditavam que estavam ajudando, pois lidavam com doenças que ainda compreendiam pouco e tinham poucas opções de tratamento.

Mas boa intenção não impede um erro grave.

A história da lobotomia ensina que uma prática pode parecer científica, moderna e bem-intencionada, mas ainda precisar ser questionada. Ela ensina que aplausos, diplomas, instituições famosas e consenso não substituem a necessidade de observar consequências reais.

Por muitos anos, a lobotomia foi vista como resposta. Depois, tornou-se símbolo de um dos maiores erros da história da medicina.

A pergunta que fica não é apenas “como eles puderam fazer isso?”. A pergunta mais importante é: quais práticas de hoje tratamos como normais porque ainda não enxergamos todos os seus efeitos? para mais informações acesse o vídeo https://www.youtube.com/watch?v=ZWCA8ejKUdA 

Final dos anos 1950 e início dos anos 1960: a tragédia da talidomida

A talidomida foi vendida como medicamento para ansiedade, sono e enjoo durante a gravidez. Era apresentada como uma opção segura.

Depois, milhares de crianças nasceram com má-formações graves, incluindo braços e pernas encurtados ou ausentes, além de problemas em órgãos internos, olhos e ouvidos.

O caso ajudou a mudar as regras de aprovação e acompanhamento de medicamentos em muitos países.

Mais uma vez, a pergunta permanece: quantas pessoas teriam sido poupadas se os testes, as críticas e os sinais de alerta tivessem recebido mais atenção antes de o remédio ser tratado como seguro?

Décadas de 1960 e 1970: orientações alimentares e margarina

Em 1961, a American Heart Association passou a recomendar a redução das gorduras saturadas para diminuir riscos cardiovasculares. A recomendação influenciou fortemente a alimentação de milhões de pessoas.

Nesse contexto, manteiga e outras gorduras animais passaram a ser vistas com desconfiança, enquanto diversos produtos vegetais industrializados ganharam espaço, entre eles algumas margarinas feitas com óleos parcialmente hidrogenados.

É importante não simplificar demais: nem toda margarina era igual, nem toda orientação nutricional daquele período era errada. O problema é que, durante anos, muitas pessoas trataram produtos industrializados como automaticamente mais saudáveis apenas por serem “vegetais” ou por terem recebido apoio de autoridades.

Mais tarde, descobriu-se que as gorduras trans industriais presentes em muitas formulações eram prejudiciais à saúde.

Anos 1980: tiraram a gordura e devolveram o açúcar

Na década de 1980, produtos “sem gordura” ou “com pouca gordura” se espalharam pelo mercado. Para manter o sabor, muitos fabricantes aumentaram açúcar, xaropes, sal e aditivos.

A obesidade cresceu fortemente nas décadas seguintes. Seria errado afirmar que um único fator explica um problema tão complexo: alimentação, sedentarismo, ultraprocessados, rotina de trabalho, sono e muitos outros elementos fazem parte da questão.

Mas seria igualmente errado fingir que as escolhas alimentares promovidas como saudáveis não merecem revisão.

Quando alguém resume a saúde a uma frase simples — “gordura é sempre ruim”, “vegetal é sempre melhor”, “este produto é saudável porque diz light” — o senso crítico deve entrar em cena.

Anos 1990: OxyContin e o desastre dos opioides

Em 1996, a empresa Purdue Pharma lançou o OxyContin, um analgésico à base de oxicodona, substância da família dos opioides.

O medicamento foi promovido de forma agressiva. Anos depois, a empresa admitiu crimes relacionados à forma como divulgou seus produtos.

O resultado foi uma crise gigantesca de dependência e overdose nos Estados Unidos. Muitas famílias perderam filhos, pais e irmãos.

Esse caso mostra de maneira clara como o interesse financeiro pode deformar a verdade. Uma informação incompleta, repetida muitas vezes e embalada com aparência de autoridade, pode levar pessoas a decisões perigosas.

Anos 2000: Vioxx e o risco de infarto

O Vioxx foi um anti-inflamatório muito vendido em vários países, inclusive no Brasil. Era usado para aliviar dores e inflamações.

Em 2004, o medicamento foi retirado do mercado mundial depois que estudos apontaram aumento do risco de eventos cardiovasculares, como infarto e derrame, especialmente no uso prolongado.

Para quem tomava o remédio confiando em sua segurança, a notícia foi assustadora. Afinal, se um medicamento passou por aprovação, publicidade e prescrição, por que depois precisou ser retirado?

A resposta é desconfortável, mas necessária: aprovação não significa conhecimento perfeito. A medicina avança, mas alguns riscos só aparecem quando o produto é usado por muitas pessoas e acompanhado durante mais tempo.

2020: decisões urgentes e informações ainda em construção

A pandemia de Covid-19 colocou o mundo diante de decisões urgentes. Vacinas foram desenvolvidas, testadas e autorizadas em tempo muito menor do que o habitual, em meio a uma crise sanitária global.

Isso não prova automaticamente que elas eram inseguras. Também não permite dizer que toda pergunta sobre efeitos, eficácia, restrições ou decisões públicas era ilegítima.

O erro de muitos debates foi transformar duas posições extremas em únicas opções: ou a pessoa aceitava tudo sem questionar, ou era tratada como inimiga da ciência.

A posição responsável é diferente: decisões de saúde pública devem usar as melhores evidências disponíveis no momento, mas continuar abertas à revisão, à transparência e ao acompanhamento de efeitos ao longo do tempo.

Em 2026, Anthony Fauci, um dos rostos mais conhecidos da resposta americana à pandemia, foi chamado a depor em uma audiência do Senado dos Estados Unidos e invocou repetidamente o direito constitucional de não se autoincriminar. Isso, por si só, não prova culpa. Mas mostra que decisões públicas importantes podem — e devem — ser analisadas, questionadas e investigadas sem que toda pergunta seja tratada como crime ou loucura.

O que esses casos têm em comum?

Eles mostram que o erro coletivo costuma crescer por pelo menos três caminhos.

O primeiro é o interesse financeiro.

Se uma empresa, grupo ou profissional ganha muito dinheiro com uma ideia, essa informação não prova que a ideia é falsa. Mas exige cuidado redobrado. Quem lucra também pode ter interesse em esconder riscos, exagerar benefícios ou diminuir críticas.

O segundo é a conveniência.

Às vezes, uma solução parece boa porque facilita a vida de quem decide. No caso da lobotomia, uma pessoa passiva podia parecer “mais fácil de cuidar”. Mas uma vida mais silenciosa não era necessariamente uma vida melhor.

O terceiro é a pressão social e a autoridade.

Muitas pessoas têm medo de fazer perguntas. Não querem parecer ignorantes, rebeldes, ingratas ou “contra a ciência”. Então repetem o que ouviram, mesmo quando não entenderam as provas.

Mas autoridade é uma referência importante; não é uma prova final.

Nem toda verdade pode ser comprovada imediatamente

Existe ainda uma dificuldade maior: algumas verdades levam tempo para aparecer.

Durante anos, a lobotomia foi tratada como solução. Depois, seus danos se tornaram impossíveis de ignorar.

Isso não quer dizer que toda ideia rejeitada seja genial ou verdadeira. Uma pessoa incompreendida não se torna automaticamente um gênio. Uma teoria criticada não se torna automaticamente correta.

A história de Vincent van Gogh ajuda a ilustrar esse limite. Sua obra recebeu reconhecimento muito maior após sua morte, quando outras gerações passaram a enxergar nela um valor que muitos de seus contemporâneos não perceberam.

Existem relatos que alguns religiosos o acusavam de louco, burro ou ainda endemoniado por fazer obras diferentes do padrão, em sua época somente retratos mais próximos do real eram considerados uma habilidade extraordinária, lembrando que em sua época não tínhamos câmeras fotográficas ou impressoras, mas foi a geração futura um século depois que teve a capacidade de compreender que seus traços diferentes na verdade eram obras de arte genial

A lição não é que “a maioria está sempre errada”. A lição é mais humilde: a maioria também pode errar.

Conclusão: respeito não é cegueira

Senso crítico não é desconfiar de tudo. Não é rejeitar médicos, ciência, pais, avós, professores ou instituições.

Senso crítico é respeitar sem idolatrar.

É ouvir sem se render.

É perguntar sem arrogância.

A experiência dos mais velhos merece honra. O conhecimento científico merece ser levado a sério. A autoridade merece consideração.

Mas nenhuma dessas coisas deve fechar a porta para a verificação.

Porque, quando uma sociedade transforma qualquer pessoa, instituição ou consenso em verdade absoluta, ela deixa de buscar a verdade — e passa apenas a proteger uma crença.

A verdade não muda porque a maioria a aplaude. E não deixa de ser verdade porque, no começo, quase ninguém consegue enxergá-la.


Fontes de apoio

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